Sobrevivendo na escuridão: como é a vida em Cuba em meio a apagões e ao colapso do sistema elétrico
Cuba tem dois apagões totais em menos de 24 horas Em Cuba, viver sem luz deixou de ser exceção e passou a fazer parte da rotina. Com apagões cada vez mais f...
Cuba tem dois apagões totais em menos de 24 horas Em Cuba, viver sem luz deixou de ser exceção e passou a fazer parte da rotina. Com apagões cada vez mais frequentes e prolongados, os cubanos tiveram de adaptar o dia a dia para sobreviver. Tarefas banais, como cozinhar, conservar alimentos e manter o celular carregado, se transformaram em grandes desafios, obrigando os moradores a improvisar soluções para atravessar horas — e, às vezes, dias — sem energia. No mais recente apagão, no último domingo (2), a ilha ficou quase 48 horas sem luz, no sexto blecaute generalizado de 2026. Ou seja, os 9,6 milhões de habitantes enfrentaram dois dias seguidos de escuridão. 👉 Este é só mais um episódio da crise energética que se agravou nos últimos meses. Cuba já registrou ao menos cinco apagões nacionais neste ano, sendo três deles apenas em julho, em um intervalo de 10 dias. Desde o final de 2024, foram 11 apagões em todo o país. Além desses, a ilha vem sofrendo também com diversos apagões parciais. Em grande parte dos dias, porém, a energia funciona por apenas 2 horas, segundo relatos de cubanos ao g1. O sistema elétrico de Cuba enfrenta uma combinação de problemas, agravados pelo embargo energético imposto pelo governo de Donald Trump: Os Estados Unidos impuseram um bloqueio marítimo a Cuba e interromperam as entregas regulares de combustível. Sem combustível, as centrais elétricas e usinas termelétricas - que já sofriam com a deterioração da sua infraestrutura - entraram em colapso Alto-falantes e megafones para driblar a falta de internet Pessoas dormem em um colchão perto da porta da varanda enquanto Cuba corre para reconectar sua rede elétrica nacional após um apagão em todo o país, em Havana, Cuba, 4 de agosto de 2026. REUTERS/Norlys Perez Para o jornalista cubano Istaván Ojeda, "a comunicação é o que mais preocupa" os moradores da ilha. Ojeda, que também trabalha como correspondente internacional, explica que toda a infraestrutura de internet em Cuba depende da eletricidade. "O bloqueio dos EUA também afeta as telecomunicações, e não apenas de forma indireta (como consequência da escassez de combustível e de eletricidade). Os Estados Unidos também estão bloqueando o acesso das empresas estatais cubanas de telecomunicações a cabos submarinos", afirmou Ojeda, em entrevista ao g1. O jornalista explica que Cuba tem 7 milhões de celulares com conexão à internet e que a interrupção desse serviço tem causado intenso estresse à população, que usa as redes sociais para se informar. "[Nas redes sociais] é onde ocorre um debate político e social intenso. Os principais líderes políticos do governo estão nesses espaços — e, bom, nós da mídia pública também estamos lá; ou seja, nós, jornalistas que trabalhamos na mídia pública estamos lá porque é onde está o público", afirma. Para driblar o colapso das comunicações, o governo cubano recorre a um sistema de alto-falantes e a funcionários com megafones para transmitir informações essenciais. "Funciona até certo ponto, mas é importante admitir que não é um mecanismo infalível; ou seja, ele tem suas falhas", destaca Ojeda. Mas como recarregar o celular? Muitos cubados têm recorrido a painéis solares e baterias recarregáveis, geralmente enviados por familiares que vivem nos Estados Unidos, segundo Ojeda. Quem não tem essa opção, busca prédios do governo para recarregar seus celulares. Hospitais, clínicas e instalações de telecomunicação contam com geradores de emergência para continuar funcionando e mantêm as portas abertas aos moradores durante os apagões, afirma o jornalista. Ojeda, que atua em um centro de telecomunicações, consegue carregar seus aparelhos no próprio local de trabalho, já que, segundo ele, “a pequena quantidade de combustível disponível na província era destinada a esse tipo de instalação”. Conseguir manter os dispositivos carregados faz toda a diferença para que os moradores da ilha possam trabalhar. Ojeda, que atua em um centro de telecomunicações, consegue carregar seus aparelhos no próprio local de trabalho, já que, segundo ele, "a pequena quantidade de combustível disponível na província em que mora é destinada a esse tipo de instalação". Istaván Ojeda, correspondente cubano via Reynaldo López Desafio para cozinhar e preços nas alturas Uma das maiores dificuldades dos cubanos está em cozinhar. "Não dá para conectar os fogões a baterias, porque a potência não é suficiente", explica Ojeda. A solução é recorrer ao carvão e à lenha. Além disso, não é possível conservar alimentos em geladeiras sem eletricidade. Em entrevista ao g1, o Jorge Enrique Rodríguez, que atua como repórter no Diário de Cuba, explica que os preços dos alimentos dispararam, assim como outros recursos essenciais. "Um litro de petróleo passou de 2.800 pesos para 5.000 pesos em menos de um mês. Você pode imaginar como é difícil para um cubano sobreviver quando o preço de um litro de petróleo mais que dobrou em menos de um mês?", desabafa. Rodríguez explica que o governo acabou impondo um teto de preços para o setor privado. No entanto, o efeito é o contrário. Por conta dos valores fixados, comerciantes deixam de vender os itens, e "os produtos depois reaparecem no mercado negro pelo dobro do preço", acrescenta. A alimentação é um problema fundamental aqui, porque as pessoas são obrigadas a comprá-la diariamente. Não se pode arriscar comprar comida para dois ou três dias, pois ela estragará", explica. Comprar comida diariamente dobra os gastos planejados com alimentação, acrescenta Rodríguez. "O governo não oferece nenhum tipo de apoio nesse sentido. Na verdade, o governo é o principal culpado pela situação atual em todos os aspectos". Ele acrescenta ainda que os cubanos mais vulneráveis são os que mais sofrem. "O planejamento interno é a prioridade para os cubanos nesta situação. Mães solteiras com bebês e pessoas com parentes idosos ou doentes são as que mais sofrem. Estamos no meio do verão, e temos que comprar comida todos os dias, a comida estraga e não podemos congelar nada". 'Estamos loucos', 'tudo é caótico' Para além das dificuldades materiais, muitos cubanos descrevem uma sensação de esgotamento, por tentar resolver os mesmos problemas repetidas vezes. Segundo reportagem da agência de notícias France Press, o colapso do sistema elétrico gerou impactos na saúde mental da população. No hospital Calixto García, em Havana, onde funciona há anos uma clínica especializada no tratamento do estresse, os médicos também observam como a crise se reflete nas consultas. Estudantes, aposentados e profissionais compartilham, há meses, as mesmas preocupações: apagões, pouco dinheiro, familiares que emigraram e planos colocados em espera. "Tudo é caótico (...) a situação atual é de tanto estresse e tanta incerteza que a gente nem sabe como levar o dia a dia", desabafa Claudia Sifredo, estudante de pedagogia de 29 anos teve que suspender vários de seus planos, em entrevista à AFP. Leandro Wanton, um guia turístico de 45 anos que ficou desempregado após o colapso do setor, reconhece que muitas vezes a frustração é difícil de conter. "Há dias em que você acorda e tem vontade de explodir", afirma. A cerca de 150 km de Havana, em Consolación del Sur, na província de Pinar del Río, o agricultor Fidel Maqueira passa as noites vigiando seus bois para evitar roubos. Durante o dia, também enfrenta apagões, escassez de água e de insumos para suas plantações, além de preços cada vez mais altos. "Estamos vivendo uma fase muito ruim. Estamos loucos (...), não temos tranquilidade nenhuma". Um homem espera por um táxi e usa seu celular como luz depois que a rede elétrica de Cuba entrou em colapso no final do domingo, mergulhando a ilha de cerca de 10 milhões de pessoas na escuridão, à medida que os apagões se tornam mais frequentes, em Havana, Cuba, 3 de agosto de 2026. REUTERS/Norlys Perez 'Gaza silenciosa' Especialistas em direitos humanos da ONU condenaram na última quinta (7) as recentes medidas tomadas pelos Estados Unidos contra Cuba e pediram à comunidade internacional que atue rapidamente para evitar que uma "Gaza silenciosa" venha a se formar na ilha. “Os alimentos nunca devem ser usados como instrumento de pressão política. Medidas que, conscientemente, privam uma população dos meios de sobrevivência atentam contra as garantias mais básicas do direito à vida e prejudicam a essência da dignidade humana”, afirmaram os especialistas. *Sob supervisão de Aline Lamas